domingo, 2 de fevereiro de 2014

Capitulo um - primeira parte

Quando me dei conta que o mundo qual conhecia já não existia mais, era tarde muito tarde.

Os dias passavam vagarosamente comparados as noites de vigília para estar vivo no dia seguinte. E para isso o silencio era naquele momento meu principal aliado.

Não possuía muitas provisões aquela altura da situação. Contava apenas com minha mochila de prontidão com um pouco menos de 3 litros de água. Pelo menos, água ainda é fácil encontrar em abundancia. Muitas casas estão com as caixas cheias. Há também alguns biscoitos que tive o prazer de encontrar na casa que me abriguei dois dias atrás. Medicamentos gerais, como analgésicos, antitérmicos e alguns pelo que posso talvez descrever eram antibióticos, e um frasco com álcool. Umas baterias e uma lanterna me acompanhavam também nesse arsenal pela sobrevivência. Hoje ainda consegui encontrar fósforos e algumas velas.

A noite hoje está particularmente quente, estamos no meio do verão e as temperaturas à noite devem sem problema algum ultrapassar os 30 graus. Ainda mais tendo de manter tudo fechado. Aqui, por hora estou seguro e o silencio natural das coisas me assusta um pouco. Não há movimentações de automóveis de tipo algum, o ultimo avião que ouvi já faz uns 15 dias, desde então qualquer intervenção humana é nula. Não há eletricidade há mais de um mês. Animais domésticos como cães e gatos também sumiram de uma forma que é como se nunca houvesse existido algum dia.

O ar era pesado, e por onde quer que eu fosse um cheiro estranho de podridão misturado a fezes e outras coisas que não sei descrever pairava pelas ruas lá fora. A Lua esta cheia nessa noite o que me facilita bastante a visualização dentro da casa com a luz que vem das janelas mais altas. Preciso procurar mais provisões, pois não sei o que vira amanhã. A cozinha da casa é ampla. Muitos armários. Alguma coisa importante alguém deve ter deixado para traz. Era obvio pela bagunça que alguém já havia passado por ali. Os vidros quebrados no chão, armários entre abertos com tudo espalhado. Ao me aproximar da mesa principal, vejo um velho jornal, talvez o último impresso antes de tudo acontecer. Nele estava escrito em letras grandes: “RECORDES DE VENDAS PARA O NATAL ANIMA COMERCIANTES LOCAIS”. Pois não houve Natal, nem ano novo. Acho que já estou em outro ano. Não existe mais aquele tédio de domingo à noite ou aquela euforia para que chegue logo sexta feira. Euforia é estar bem no dia seguinte.
Continuo minha busca pela cozinha. Sempre gostei daqueles jogos de procurar objetos, gastava horas procurando coisas absurdas em cenários também absurdos. Hoje é tudo real, e o mínimo que procuro é alguma coisa para comer. E nessa aventura logo embaixo da pia encontro uma lata de pêssegos em calda e um sache de azeitonas. O sucesso esta garantido por essa noite. Pergunto-me como cheguei ali vivo.

Hoje estou acredito a uns 20 kilometros do que um dia foi minha casa. Logo que tudo aconteceu carros da policia passavam com estranha cautela informando aos moradores que permanecessem em casa e esperassem ajuda local. Nesse dia já não havia eletricidade nem abastecimento de água. Todos os serviços básicos que conhecemos haviam terminado. Não havia coleta de lixo, carteiros, nada. Os vizinhos assim como eu tentamos prosseguir com o que tínhamos. Não havia noticia de lugar algum. Os telefones celulares permaneceram ativos por poucas horas após o termino definitivo da eletricidade. E as ultimas noticias que chegaram à nossa rua era de uma grande explosão e incêndios intermináveis na capital. Assustadas a maioria das pessoas juntaram o que tinham, e junto a seus familiares pegaram estrada. Algumas diziam apenas que iriam para o interior, outras o litoral. Lembro com clareza quando me disseram que seria loucura ficar ali. E foi. Nasci no sul do país, e estava a mais de 400 kilometros de minha cidade. E para minha alegria mais intima, com quase 34 anos de idade ainda não sabia dirigir. A vida nos cobra caro já dizia meu pai. Ou ainda, burro tem que pastar dizia minha irmã. Então me restava pastar até em casa.

Não tenho noticias de lá desde uma semana antes de tudo der iniciado e tudo estava como sempre foi. E pergunto-me hoje como minha família está.
Como dizia antes, foi loucura ficar ali. Em dois dias todos meus vizinhos já haviam partido para algum lugar. Mas naquela altura tanto faz, não os conhecia bem, já que estava morando ali a pouco menos de um ano.
As viaturas de policia já não subiam o bairro mais. Cada dia que passava o silêncio era maior. Juro que ouvi tiros ao longe seguidos de gritos. Cauteloso, decidi me trancar mais em casa.
A casa qual morava era de frente para rua, e o que me mantinha seguro eram as fortes grades em portas e janelas. Era apenas a porta da frente. Não havia terreno ao fundo.
Eu estava para completar uma semana enclausurada, quando o silencio já dominava que no meio da tarde, ouvi passos na frente de casa, junto à parede. Os vidros da casa não eram daqueles transparentes. Não podia ver o que estava lá fora. E mesmo que pudesse não queria arriscar meu confinamento. Os passos aumentaram, mas o som me fez perceber claramente que era como um cambalear. Era como se fosse um bêbado qualquer aportando em minha casa. Ainda em silencio forcei minha audição. Os passos paravam em intervalos e minutos seguintes recomeçavam. Junto a eles um som abafado de gemidos que não eram bem gemidos. Era tudo muito confuso. E se fosse um bêbado? E se fosse um ferido? Não entendo nada de socorros e nem tenho paciência com pessoas bêbadas. Então fiquei em silencio. O vulto foi ganhando distancia da casa. Confesso que sou muito medroso, muito não, extremamente. Ter ficado por decisão própria para trás e não ter partido antes me fazia de certa forma não ter com quem me preocupar a não ser comigo mesmo. Eu sabia apenas que aquilo ali que estava acontecendo não era normal e não iria ser resolvido em pouco tempo.

A noção de tempo não existia mais.
Esperei umas duas horas e resolvi abrir a porta interna que dava para rua e ver se descobria alguma coisa, e o que vi realmente me fez ter a certeza que deveria tomar uma decisão em ficar ali ou procurar sair daquela casa.

A menos de dois metros da porta, no asfalto da rua havia um largo rastro de que acredito ser sangue entre pegadas defeituosas. Mas era um fluido escuro, coagulado e fétido. O cheiro rapidamente chegou a meu nariz e me fez ter ânsia de vômito. O rastro seguia pela rua até sumir na esquina.
Fechei a porta e decidi que sairia dali a procura de saber o que estava acontecendo. Eu já não podia mais esperar. A noite se aproximava enquanto eu rapidamente fazia uma mochila com o que dava. Peguei o que caberia apenas, mas mantendo espaço para uma garrafa de água, alguma granola que encontrei no armário, algumas poucas frutas que ainda estavam boas.

Juntei o pouco de dinheiro que havia guardado e meus documentos. Envolvi tudo em um saco plástico para evitar que molhasse em caso daquelas chuvas intensas da época de calor. Um facão foi à única arma que naquela hora pude esconder entre minhas coisas.
Havia chegado à noite e então decidi sair ao amanhecer. Tomei um banho frio e tentei descansar e pensar no que havia passado em frente à casa. Seria um ferido? Se fosse, pela quantidade de sangue na rua essa pessoa já deve estar morta há essa hora.

Tanto faz, precisava me preparar, amanhã cedo andarei nas ruas pela primeira vez em uma semana. Meus planos é subir uma rua acima onde é possível ver claramente a cidade de dois lados. O silencio era de proporções gigantescas. Só me restava dormir.

O calor aumentara drasticamente durante a noite e um cheiro insuportável de plástico derretido me fez acordar em meio a uma fumaça intensa que vinha da cozinha. Ao perceber o que estava acontecendo foi tudo muito rápido. O clarão das chamas já adentrava em direção dos armários da cozinha e banheiro. A fumaça ia acumulando de forma que já não distinguia mais os moveis e vinha em direção a sala. Apanhei em mãos meu par de  tênis que havia junto a cama e corri para a porta que permanecia trancada e junto a ela a grade de segurança.

Desesperado, lembrei que a chave da grade estava na porta da cozinha, que já estava coberta de fogo e fumaça. Só me restava puxar um lençol, cobrir o corpo e ir em direção daquele inferno que crescia rapidamente. Tateando ante a fumaça e o calor que ardia em minha pele e pés descalços consegui chegar com as mãos até ela dependurada atrás da porta. Com as chaves em mãos corri até a porta e rapidamente abri chegando até a rua. Naquela cidade, as casa eram antigas e todas dividiam de alguma forma paredes e telhados, como se fosse uma coisa só. O clarão era tão intenso que dava para perceber que o incêndio ardia sobre todas as casas daquela quadra. Era apenas o som crepitante das labaredas que se podia ver subir aos seus, que já dava sinal de amanhecer. O importante era sair dali o quanto antes.

Já nem me lembrava de como era o amanhecer, e claramente podia se ver estrelas brilhando no céu ainda com força. Ao subir a rua e olhar para a cidade o que vi ao longe foi uma imensidão vermelha e cinza, numa mistura de fogo e fumaça, ao som de explosões abafadas.

Não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Um amanhecer apocalíptico era a melhor forma de descrever tamanha desolação. Não vi nenhuma pessoa nas ruas próximas, as casas naquela rua todas pareciam sem vida, sem ninguém pra me dizer o que estava acontecendo. Havia muitos carros com portas abertas. Nada do que acontecia ali me dava uma perspectiva de explicação lógica e racional. Fui em frente. Atrás de mim as chamas destruíam as casas do bairro que morava e a frente a uns 10 kilometros outra parte da cidade queimava de ponta a ponta. Decidi ir então até a igreja matriz e ver se encontrava alguém. Naquela cidade devido a geografia, ou você estava subindo ou você estava descendo. Descer era fácil para um cara acima do peso como eu, a era apenas três quadras abaixo. O curto caminho que percorri era como todos os outros. Casas abandonadas, algumas abertas. Carros estacionados na frente dos portões me faziam pensar que alguém assim como eu pensou em permanecer em casa também. Mas o silencio ainda reinava. No meu relógio marcava 06h38min. Cheguei pela lateral da igreja e a porta estava aberta. Entrei procurando por alguém que pudesse me dizer alguma coisa. Acostumado a ir as missas de domingo nunca vi aquela igreja tão deserta. A luz já incidia sobre os vitrais trazendo uma linda mescla de cores que sempre me admirei de ver. Chegando ao meio da igreja diante o altar pedi aos anjos que me mostrassem o caminho. Um breve sinal da cruz e segui até a parte que ia ao escritório da igreja. A porta entre aberta deixava um claro sinal de que poderia entrar. Chamei por alguém que não estava ali. Só o silencio era resposta.
Voltei adentrar a igreja me direcionando agora para o altar. Havia muitos informativos da ultima missa ao chão espalhado. O cálice da santa ceia ainda no ali e algumas hóstias espalhadas sobre o altar, e as velas estavam derretidas até o final. Isso significava que tudo ali foi abandonado as pressas. O que me deixava inquieto era as manchas no chão. Era sangue seco. Escuro.
Meus pensamentos eram distantes diante tanta coisa acontecendo, mas um som ao longe me trouxe de novo para aquele lugar sagrado. Segui até a frente e de cima das escadas em frente a igreja vi um cenário que só vi em filmes. A igreja dava de frente a praça central e viaturas de policia abandonadas adornavam junto a alguns carros populares. Dois carros batidos um contra o outro queimado até o fim indicavam uma morte rápida. Dezenas de corpos espalhados pelo chão numa carnificina sem fim. Eram aproximadamente uns 50 corpos, entre eles adultos, homens e mulheres e crianças de todas as idades também. O som que ouvi era dos urubus depositados em cima dos carros, arvores e carcaças. Eram muitos. E o odor era insuportável. Nuvens de moscas pairavam entre os corpos.

Não sustentando minha emoção sinto minhas pernas tremerem de um jeito que tenho dificuldade de ficar em pé. Desabando sobre meu próprio peso um pesar no estomago me fez vomitar. Sinto-me fraco que nem percebo que alguém se aproximava por trás de mim. Sinto uma mão forte me apertando, empurrando meu corpo para frente as escadas da igreja. Ao me virar com dificuldade percebo rapidamente que era um rapaz ferido mortalmente, pois o braço esquerdo estava dependurado apenas pela malha da camisa toda coberto de sangue negro. Ele não disse nada apenas me segurava com força e me apertava com suas unhas. Senti um ardor na pele e o som que ele produzia era mais como um gemido de dor latente. Ele chegou mais perto e pude então sentir seu cheiro podre. Em meio aos movimentos rolamos os degraus da escadaria da igreja, abrindo minha mochila e espalhando tudo que eu tinha. Com a descida abrupta seu braço ficou entre os degraus. Adrenalina era tão grande que mal senti a dor da queda. Sentindo o Sol queimando seus olhos já nas primeiras horas da manhã voltei a realidade procurando o rapaz. Ele estava a uns três metros de distancia, mas rapidamente de um jeito todo estranho ele se levanta sem dificuldades diante sua situação e volta em minha direção. Sinto agora doer meu joelho da forma que logo percebo que desloquei minha rotula na queda. Minha pele estava alterada no local, levantada devido ao osso fora do lugar. Friamente levei minha mão e conduzi minha rotula no local o que me fez gritar de dor. Havia sangue em minhas mãos. Meu sangue. Cambaleando ele se aproxima e agarra novamente minha perna, mas rapidamente rolando meu corpo pesado para outro lado ele perde o equilíbrio e cai novamente.

Seu rosto bate no chão e um sangue grosso e escuro verte de seus orifícios. Sua boca agora vertendo aquele líquido negro aquele rapaz abre a boca emitindo um som desesperado. Levanto-me em direção a escada e vejo meu facão caído entre os degraus. Tento alcançar esticando meu braço quando sou novamente segurado pelo rapaz sem braço. Ele agora se arrasta em minha direção tomando impulso em meu próprio peso. Diante sua sofreguidão consigo rapidamente alcançar meu facão e como um reflexo que decidiria minha vida ou minha morte, afundava então a lamina em seu lobo frontal num som abafado e molhado. Senti seu corpo ágil desacelerar quase que imediatamente derramando aquele visco que saia de sua boca sobre minha perna. Empurrei-o com força para liberar a lamina e voltar a ficar em pé. Nos segundos seguintes percebi que o som de nossa luta atraiu atenção de outras pessoas que estavam por ali.
Estremeci ao perceber que as pessoas que ali estavam tinham seus corpos dilacerados das mais diversas formas e aqueles corpos cambaleando seguiam em minha direção.

Umas 15 pessoas se aproximavam batendo uma nas outras. Percebi um senhor obeso com a barriga aberta e suas entranhas caindo de seu corpo. Ao lado uma menina de uns 10 anos de idade com a perna na altura do tornozelo toda sem carne. O rosto de uma mulher estava com a metade faltando e aquele visco negro saltando de seus orifícios. Conforme eles emitiam aquele som abafado os urubus que desferiam bicadas na tentativa de se alimentar das carnes que ainda restavam nos corpos, levantavam voo sem muito se importar com aquelas pessoas que por eles passavam.


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